Hoje, cinco de abril de dois mil e quatorze, completa um ano que o The Guardian, periódico britânico, publicou as primeiras revelações sobre os arquivos da NSA, a agência de 'segurança' do governo dos EUA, sobre quando, como e onde os direitos básicos à privacidade de cidadãos do mundo todo têm sido sistematicamente violados.

De lá para cá, muita água já rolou por debaixo dessa ponte. Presidentes ficaram de mau, empresas foram implicadas, gente poderosa 'caiu', uma miríade de eventos cercou e ainda cerca as práticas da NSA tidas como abusivas por uma parte da sociedade, e como traição do Guardian e de Edward Snowden por parte do governo dos EUA. E mais: ficou evidente que a prática da NSA é também a pratica geral do planeta 'democrático' e Snowden virou um Julian Assange pós-Julian Assange.

Apenas uma coisa não mudou: a atitude das pessoas comuns, os pobres mortais.

Antes de falar desses, preciso falar de uma outra instituição implicada até o osso nesse episódio: a mídia. Ela tem sido deveras eficiente em transformar o diálogo político e ético acerca dos fundamentos da privacidade em um tema pessoal cujo Snowden é o pivô. Pouco se fala das suas motivações, muito se fala do estrago que causou e da sua conduta 'amoral' e 'perigosa' ao revelar informações que 'protegem os cidadãos e o mundo livre'. Bullshit! Conversa mole para boi dormir! Falácia para enganar trouxa, mas que funciona num mundo de imbecis. Esses sempre compram o discurso mais fácil e mais repetido.

Eu não vou focar o que tenho a dizer no Snowden, porque a pessoa dele é um assunto que só compete a ele. Sobre isso, tenho a dizer apenas que eu faria o mesmo se tivesse a oportunidade que ele teve em mãos e que ele pode até ser um 'traidor', mas só 'traiu' quem eu teria enorme prazer em 'trair' também. O preço que ele pagou, paga e pagará pelo que ele fez é a prova viva de que só os idiotas pensam que somos livres no mundo de hoje.

Voltando aos mortais. A reação mais comum que ouço das pessoas sobre o tema da privacidade é a seguinte:

'Eu não sou terrorista! Se querem olhar a minha vida, que olhem!'

Pois bem. Vamos expandir esse conceito?

'Eu não sou terrorista! Se o(a) meu(inha) marido(mulher) quer ir comigo ao motel com a(o) amante, que venha!'

'Eu não sou terrorista! Se o fabricante do videogame quer monitorar minha casa, que monitore!'

'Eu não sou terrorista! Se o supermercado que saber qual cartão de crédito deve me enviar, que saiba!'

'Eu não sou terrorista! Se o ladrão quer entrar na minha casa, que entre!'

'Eu não sou terrorista! Se minha mãe quer me ver fumando maconha, que veja!'

'Eu não sou terrorista! Se o fabricante de medicamentos quer saber quando eu broxo para me vender mais antibroxante, que saiba!'

'Eu não sou terrorista! Se o sequestrador quer levar meus filhos da porta da escola, que leve!'

Aí você me chama de exagerado e alarmista. Tudo bem... É só a sua negação falando por você. Vá embora e volte daqui um tempo.

Privacidade não é sobre se você está à margem da lei ou não. Privacidade é tudo aquilo que o cerca enquanto indivíduo e que você deveria ser livre para divulgar ou não. Trata-se, nas mais simples palavras que consigo pensar, de negar o acesso a informações pessoais a quem não tem o direto de acessá-las.

Por exemplo: Se eu perder ou furtarem o meu celular, posso com grande chance de acerto prever que alguém tentará obter informações pessoais sobre mim. Se for alguém mau intencionado, poderá usar essas informações para forjar o meu sequestro para um ente querido, ou chantagear alguém da minha lista de contatos.

Quando eu protejo a minha privacidade, não é apenas porque eu me preocupo com a minha privacidade. 50% da minha motivação vem do fato que você confiou dados pessoais a mim e não gostaria, pela confiança que depositou em mim, que essas informações fossem do conhecimento de outras pessoas. É uma relação de confiança e respeito.

Mas ninguém fala disso. Ninguém sequer se preocupa em arranhar a casca deste tema. Estamos todos embriagados pela falsa idéia de que 'o governo e o sistema nos protege'. Acreditamos e nos agarramos a isso porque é mais fácil. Típico de idiotas. Nem o governo e nem o sistema protege ninguém, pois isso não é atribuição deles, ainda que esteja escrito o contrário em nossa constituição.

Outro argumento forte contra a preocupação com a privacidade é que ela inviabiliza os modelos de negócio do mercado contemporâneo. Mais uma bobagem! Temos visto empresas como Apple, Microsfot e Google (Apple, Microsfot e Google!) ralharem com o governo dos EUA sobre os abusos contra a privacidade.

Ora, se a implementação de cuidados com a privacidade por parte dos cidadãos fosse mesmo um problema para o mercado, você realmente acredita que essas empresas estaria se unindo contra as práticas abusivas dos governos aos quais elas respondem? Eu sei essa resposta: NÃO!

O mercado online tem um arsenal de ferramentas para continuar vivendo lucrativamente mesmo se não puderem ler nossas mensagens de emails, bisbilhotar nossas conversas em mensageiros instantâneos ou ouvir nossas ligações. Contornar isso é um problema deles. Não é um problema seu, portanto você não deve deixar de fazer o que puder para readquirir ao menos um pouco da sua privacidade.

Ícone da campanha Reset The Net pela privacidade online.

Hoje, cinco de abril de dois mil e quatorze, também marca o dia em que começa uma grande campanha acerca da privacidade online para os mortais comuns. A data de hoje não foi escolhida ao acaso.

Chamada Reset The Net, o lema da campanha é 'Don't ask for your privacy. Take it back.' (algo como 'Não peça privacidade. Tome-a.'). A mensagem cai como uma luva para o que eu disse aqui. Nada é novidade, mas eu tenho falado disso há mais de 10 anos, quando escrevi meu primeiro artigo sobre o tema. A mensagem é simples: privacidade não é algo que tenham que fornecer a você, mas sim algo que você possui e controla sozinho. Aliás, é assim com todos os direitos, só não consigo me lembrar quando perdemos essa idéia.

A campanha, que é uma iniciativa da ONG Fight for the Future, tem o apoio de gente grande como Google, Twitter, Mozilla, EFF e Dropbox. Lá você vai encontrar o Privacy Pack, que é uma série de instruções e aplicativos para aumentar a sua privacidade em dispositivos Android e iOS, e computadores rodando Linux, Mac ou Windows.

Não há mais desculpas. O fato de você 'não ser terrorista' nunca foi uma desculpa. Vá cuidar da sua privacidade. E se você não se importa com ela, da próxima vez que for dar uma com a patroa, me chama. Se quiser pode escrever aí nos comentários os dados do seu cartão de crédito também. Não esqueça do código de verificação, aquele de três dígitos que fica na parte de trás do cartão!

Ah! Já ia me esquecendo! Se você quer se comunicar comigo com privacidade, minha chave pública GPG está aqui. Se um dia nos encontrarmos pessoalmente, terei prazer em informar a impressão digital da minha chave para que você possa assiná-la com a sua.