Rá! Achou que era só coisa de nerd, né? Sifú!

O título acima é intencionalmente capcioso. Um pode entender fácil e compreensivamente que a pergunta é para a instituição "mercado". Mas não, não é. Faço essa pergunta para você, caro leitor. Qual é a sua lei para lidar com a instituição mercado? Tome "lei" com o sentido de ética, princípio. Moral não, porque moral é coisa de católico, milico e outros bichos estranhos.

Darei uns exemplos.

Um amigo, há quase uma década, se separou da mulher com quem vivia. Ele não a amava. Ela, terminantemente louca por ele.Cheio de remorso e com a inexperiência característica dos vinte e poucos anos, o argumento para a separação foi ele próprio, egoisticamente falando. Pensar sobre viver com uma pessoa que ele não amava era pesada demais e ele não queria isso. A relação chegou ao fim.

O fim foi trágico em vários aspectos. Ela ficou muito mal, perseguiu, agrediu, transformou toda a decepção, compreensível, primeiro em raiva, depois em ódio, depois em tudo o que pode haver de ruim para uma pessoa sentir pela outra. Ele deixou tudo para ela: cada um dos móveis e do pouco dinheiro que tinha à época. Além dela exigir isso como forma de "reparo", em face ao remorso de abandoná-la naquelas circunstâncias, parecia justo. Saiu de alguns anos de conquistas materiais com uma mão na frente e outra trás. Ele não soube se ela conseguiu ser feliz com o "valor cobrado", mas ele jura de pé junto que a liberdade de não estar com quem não amava valeu a pena.

Pouco mais de um ano depois da separação, já sem qualquer contato com a mulher, meu amigo soube que sua ex-companheira havia falecido há pouco. Leucemia. Trágico. Até hoje ele se pergunta: valeria a pena ter ficado com ela mais ano e pouco? Separar e deixar o caminho livre tanto pra ele quanto para ela buscarem uma vida mais inteira, em outra relação ou sozinhos, foi o melhor? Será que valeu a pena para ela ter ficado com tudo, principalmente com todo o ódio? Essas perguntas jamais terão respostas.

Já aos 30 e tantos, o meu amigo pensa que o fim da relação se deu não porque ele não a amava, mas porque é uma puta sacanagem tocar adiante uma relação a dois sem amor. Ele não queria se libertar da mulher que não amava. Ele queria libertá-la de viver sem amor. Essa resposta ele pode ter, e tem.

Mais um.

Outro amigo, bem recentemente, se viu traído por seu melhor amigo. Uma amizade de quase 20 anos. Golpe duro. Este decidiu ser omisso com aquele diante de uma situação crítica, delicada e com potencial de estrago muito, muito grande. Estrago profissional e financeiro. O meu amigo vendeu a empresa que havia fundado e para a qual havia empenhado toda a sua capacidade intelectual, produtiva e criativa nos últimos cinco anos. A empresa era pequena, mas tinha um produto bom e sólido, clientes, caixa e operava no azul já há mais de três anos. Não era um negócio para deixar ninguém milionário, mas trazia algum dinheiro, sim, e muito prazer ao meu amigo. Ele estava feliz em sua carreira e as perspectivas do negócio eram muito promissoras.

A empresa foi vendida, contrato assinado em junho deste ano, dois mil e doze. Não houve troca de dinheiro no negócio, a não ser a transferência do saudável caixa da empresa sendo vendida para a empresa que estava comprando. Vamos chamá-las aqui de empresa A (a que foi vendida), empresa B (a que comprou) e empresa C (o fruto da união das duas empresas).

Pois bem, a empresa B comprou a empresa A e deu aos sócios desta cotas proporcionais à sua participação original na empresa A. A empresa C fatura cerca de 10 vezes o que a empresa A faturava. Parecia um excelente negócio. E era, só não era para o meu amigo. Ele foi chutado da nova empresa. Sumariamente chutado. Motivo alegado? Um reajuste de R$ 2.000 na retirada mensal.

Acontece que esse era o plano inicial tanto dos sócios do meu amigo na empresa A quanto dos novos sócios que estavam chegando da empresa B. E o melhor amigo do meu amigo estava ciente disso pelo menos uns três meses antes do contrato de compra e venda ser assinado. Ele foi ameaçado por um dos sócios da empresa A, para o qual trabalha em outra empresa, que se abrisse o bico ao seu amigo sobre o tema, seria demitido. E se calou.

Daí, eu pergunto novamente: qual a sua lei para lidar com o mercado? É ganhar ou se proteger a qualquer custo? É permitir que o vil metal corroa a confiança que você tem em outras pessoas e que elas possam ter em você? É enriquecer até o dinheiro explodir pelos seus orifícios todos?

Se você pensa assim, tenho uma péssima notícia para te dar: a sociedade e o planeta não sustenta a sua escolha. Não há recursos financeiros para que todos ganhem o tempo todo. Não há recursos sequer para sustentar o ganho dos mais ricos apenas. Vivemos em um confinamento global onde os recursos, sejam os naturais, sejam os sintéticos, são limitados e escassos. Não há meios para sustentar tal pujança.

Agora tente, esforce-se mesmo, imaginar como seria negociar algo com um vendedor sabendo que ele não quer explorar você. Que o objetivo dele não é extorquir cada centavo que puder do seu bolso em benefício das margens do negócio ao qual ele está vinculado. E que você também fará o mesmo. Você não vai tentar eliminar qualquer possibilidade de lucro do vendedor e do negócio ao qual ele está vinculado.

Os dois, você e vendedor, vão negociar um preço justo. Por "justo" entenda o seguinte: o preço final não é o mais alto que ele pode conseguir, nem o mais baixo que você pode obter. O preço "justo" é aquele que garanta o seu bem estar de não dever além do que pode e que, ao mesmo tempo, garanta a sobrevivência do negócio. O preço, o lucro, e o pagamento "justos" não são os que enriquecem. É o que garante a sobrevivência tanto de vendedores quanto de compradores.

Tente imaginar como seria entrar numa loja qualquer sabendo que ali a política não é a do "tem trouxa que paga 5.000 dinheiros num negócio que valeria 500 dinheiros, então põe preço para trouxas". Tente também se colocar no lugar do vendedor. Imagine-se olhando para esse cliente chegar sabendo que ele não vai querer comer cada centavo da sua comissão, ao mesmo tempo que sabe que o seu empregador não está extorquindo o seu cliente com margens pornográficas.

Dinheiro é legal, sim. Não sou contra ele e nem o acúmulo de algum dele. Mas dinheiro não é fim. Ele não existe para ser acumulado desembestadamente. Ele é um meio para, em primeiro lugar, custear a nossa sobrevivência mais básica e, em segundo, para nos proporcionar momentos de prazer.

Se você entende como prazer possuir ou desejar possuir um iate, duas ilhas, um helicóptero e duas Ferraris e duas Maserati, você não tem a mais vaga noção do que é prazer. Qualquer ser humano carrega em si o potencial de viver em paz e muito feliz com muito, mas muito menos que o menor dos tresloucados fetiches do consumo. Só te dizem que isso não é possível porque é escandalosamente rentável para o status quo.

Tente imaginar uma sociedade onde cada indivíduo possui recursos financeiros semelhantes e as implicações disso. Tente mesmo! E não leve a sua imaginação para o lado do comunismo ou socialismo clássicos, pois isso não tem nada a ver com tudo o que eu disse até aqui. Pense numa sociedade capitalista mesmo, com recursos melhor distribuídos apenas e com menor ênfase no consumismo frenético.

Pergunte-se qual é lei que você aplica para o mercado. Se não conseguir uma resposta imediata, continue perguntando até encontrar uma. Mas tenha uma, nem que seja a mais voraz e prejudicial à sociedade. Antes de qualquer possibilidade de um cenário social utópico, é fundamental que as pessoas estejam bem posicionadas sobre seus próprios conjuntos éticos.

Ah, e só para ficar bem claro, a minha lei para o mercado é: o prazer, a harmonia e a dedicação a mim mesmo e as pessoas que me são caras são os fins para os quais o dinheiro é o meio. Quase tudo na vida tem preço, mas as únicas que realmente importam não custam nada que o dinheiro possa pagar ou o poder possa conquistar. São essas coisas intangíveis que me interessam mais.

Mesmo nos momentos mais difíceis, de quase completa e generalizada desconfiança nas pessoas, como nos dois que citei acima, há inúmeras razões para eu continuar satisfeito com a minha ética em relação ao capital e ao mercado que o governa.

Isso é algo que posso falar com toda a propriedade. Os dois amigos das histórias acima são eu mesmo. Nos dois exemplos acima eu me fodi, fiquei muito desapontado. A pior parte nunca foi a perda financeira medida. Levam os anéis, ficam os dedos. A dor aguda e que deixa cicatrizes é de fato a causada pelo descaso com a confiança motivada pela ganância. E ainda assim, a minha ética e os meus princípios continuam inabaláveis. Melhor pra mim.