Hoje acordei as 4:25, tomei um longo e quentinho banho (até porque tá um frio sem noção em SP) e, enquanto preparava o meu desjejum, comecei a ouvir Random Access Memories, o novo álbum de estúdio do Daft Punk. Aliás, logo depois que terminei o café, fiquei deitado no sofá da sala apenas ouvindo música e me dei conta que há anos não parava para ouvir música e mais nada. Sem dançar, sem ler, sem conversar, sem pensar, sem fazer qualquer outra coisa a não ser ouvir a música. Voltarei a fazer isso mais vezes. É bem bom!

Pois bem, que eu gosto de Daft Punk não é novidade para ninguém. Sou fã dos dois robôs andróginos desde Homework (1997). O título de "melhor show que já fui na vida" é deles. TIM Festival de 2006, quando eles fizeram um dos live PAs mais incríveis que eu já vi. O palco 3D incrível e repleto de iluminação DMX com os dois enfiados dentro da piramide multimídia. Não dá para esquecer o pessoal que ficou de fora comentando depois do show que a tenda na Marina da Glória, no Rio, cuja capacidade para 5000 pessoas tinha no máximo umas 2 mil, parecia que ia explodir e ficava "pulsando" ao ritmo da música e do público. Memorável!

Mas o disco que eu mais gosto deles ainda é Discovery (2002), sendo que deste a minha música favorita é Something About Us, seguida de Harder, Better, Faster, Stronger (e apropriadamente apelidada de "melô do Domênico" por um amigo fanfarrão).

Confesso que sobre Random Access Memories eu entrei no hype de Get Lucky após assistir essa e essa entrevista e ouvir uma frase do Pharrell Williams nesta: "You don't need MDMA to feel this music", ou algo assim. Essa frase é poderosa, o Nile é um grooveiro do alto escalão e o Moroder, pô! O Moroder, ao lado do Kraftwerk, é o pai dessa porra toda! A expectativa foi simplesmente natural e eu nem resisti a ela, o que costumo fazer como cético que sou.

Mas Random Access Memories, imho, não é tudo isso. Get Lucky é ótima, de verdade. Mas o conjunto da obra em si não posso considerar como uma quebra de paradigmas ou mesmo como o "resgate da pureza da dance music" como o Neil afirma na entrevista. É bom, dançante, gostoso de ouvir e não tem nenhuma música tão insuportável quanto Too Long. Mas está longe de ser o melhor álbum do Daft Punk.

As esquisitices como Horizon e Touch continuam lá. Mas pra quem adora um groove, um arpeggio e um vocoder como eu, RAM é um prato cheio. Mesmo Touch, que não sabe se vai ou se fica nos anos 30 ou 70, tem um groove ótimo quando a música engrena.

A influência dos experimentos filarmônicos para a trilha de Tron: Legacy também está lá. Muitas cordas, sopros e metais em suas roupagens clássicas. Soa envolvente a maior parte do tempo como em Motherboard, mas cansa em outros lugares como Beyond.

As duas menções honrosas ficam para Giorgio by Moroder e Contact. A primeira, que apesar da fala do próprio, mostra porque o cara é o cara. Synths poderosos, harmonia muito bem estruturada, crescendos que lembram a trilha de Midnight Express, do próprio, e um solo ao melhor timbre de Rhodes que poderia muito bem ser ouvido no Macaco Jazz (vulgo All of Jazz, aqui em SP), só que não, porque é o Moroder.

Já Contact é sublime para mim pois toca num tema que eu gosto muito. O diálogo no começo é esse:

"Hey Bob I'm looking at what Jack was talking about and it's definitely not a particle that's nearby. It is a bright object and it's obviously rotating because it's flashing, it's way out in the distance, certainly rotating in a very rhythmic fashion because the flashes come around almost on time. As we look back at the earth it's up at about 11 o'clock, about maybe ten or twelve diame... Earth diameters. I don't know whether that does you any good, but there's something out there."

E aí entram os robôs e quebram tudo! Linda!

Enfim, não é a melhor obra do Daft Punk na minha opinião. É gostosa, tem os seus pontos altos e baixos, não é revolucionário como eu quis acreditar que seria, mas ainda é Daft Punk e é bom reconhecer isso no que ouço.

Atualização em Sáb Jun 8 10:57:31 BRT 2013: e não é que o pai do Thomas Bangalter, Daniel (vulgo Vangarde) mora no Brasil! (via @dj_spark)