Antes de mais nada, você sabe o que é ser coxinha? Não?!? Momento 'pai-dos-burros', por favor.

Ok, agora que ser coxinha está devidamente contextualizado entre eu e você, caro leitor, posso continuar.

Ontem/hoje (sei lá, meu ritmo circadiano é uma zona) estive no McDonald's para um empaturrar consciente de junk food. Sempre que vou ao 'Golden Arches(tm)' eu gosto de ler o papel que forra as bandejas nojentas e jamais lavadas da rede. Virou um hábito. Tem muitas legais, outras sofríveis. Mas todas tem uma moral.

A de agora é um clássico moralista: como pais coxinhas devem criar seus filhos coxinhas, ou, como o McDonald's prefere chamar, 'Criança em Segurança - Dicas para deixar o dia a dia das crianças mais seguro'. Algumas pérolas:

  1. Em casa, cubra tomadas que não estão sendo utilizadas e não deixe os fios de eletricidade desencapados. Utilize o padrão brasileiro de plugues e tomadas (sic).
  2. Feche e trave as tampas dos vasos sanitários. Crianças pequenas podem se afogar em uma profundidade de apenas 2,5 cm de água.
  3. Use as bocas da parte de trás dos fogões e mantenha o cabo das panelas voltado para dentro. Trave os registros de gás e a porta do forno quando o fogão não estiver sendo utilizado.
  4. Supervisione sempre a criança quando ela andar de bicicleta na rua. Sempre use equipamentos de segurança como joelheiras, cotoveleiras, e capacete. Bicicletas infantis devem ter o selo do Inmentro.
  5. Deixe os móveis longe de janelas e cortinas para evitar acidentes. Proteja as quinas pontiagudas.

Já deu pra ter uma ideia.

A maioria dos pais que conheço vão achar fofas essas dicas do papelzinho do McDonald's e me rotular como um escroto descuidado. Bom, direito eles têm. Afinal opinião é igual orifício retrofuricular, né?

Mas o triste fato por trás disso tudo é: as grandes cidades e o êxodo rural enterraram a plenitude da infância.

Eu fui criado na roça. Minha família por parte de mãe tinha uma fazendola nos confins de Goiás, mais precisamente no município de Piracanjuba-GO. Se você clicar aqui, verá exatamente a área da fazenda que era da minha família até pouco depois da morte do meu avô, em 2010 (e que seus filhos fizeram o favor de passar na grana, mesmo que não precisassem, bandiputo). Para contrapor os argumentos do forrinho do McDonald's, só preciso desses poucos mais de 800m lineares.

Nessa área eu brinquei com terra pura, seca e molhada, em tempos que minha memória não chega mas as fotos contam. Também chupava manga direto do pé, sem lavar, sentado, imundo e pelado, no meio-fio do alpendre olhando minha mãe chegar pela porteira sem dar a mínima para ela. Goiabas com bicho? Dizem que o pior do bicho da goiaba é quando você o encontra pela metade. Então o meu avô me ensinou a nunca olhar para a goiaba. Problema resolvido.

Choque elétrico? Bom, não tinha como tomar até meus quatro ou cinco anos de idade, porque não tinha luz elétrica. Mas fogo tinha! E muito! Era fogo no lampião a gás que as vezes eu mesmo acendia, na lamparina (rá, aposto que você nem sabe o que é isso) a querosene que iluminava cada cômodo, na fornalha que eu mesmo acendia as quatro e pouco da manhã para minha avó fazer o café da manhã.

Mas aí chegou a luz elétrica e suas comodidades. E os choques também. Tomei uns dois ou três e aprendi rapidinho que machucava, doía e eu chorava. Sossego para as tomadas.

Ia tirar leite no curral, aquela construção à esquerda no mapa.Tenho certeza que você não consegue imaginar como ficam aqueles dois quadradinhos com 50 a 60 cabeças de vaca de um lado e seus respectivos bezerros em outro em um dia chuvoso. Merda, meu caro. Merda e mijo de vaca às toneladas! Ah, um adendo interessante: merda e mijo de vaca que são os primeiros a entrar em contato com o leite de caixinha que você bebe, seu fresco.

Eu nunca fui muito chegado a leite. Parei de vez quando o meu pai, me cercando ao lado da fornalha, me obrigou a tomar uma xícara pequena de leite puro depois que eu disse, baixinho, 'eco' pra um copo de leite que a minha avó pôs para eu beber. Rapaz, meu pai ficou bem bravo, viu! E lá fui eu tomar o leite na marra. Foi a última vez. Mas não era por frescura, era só por gosto, porque na roça não há espaço pra frescura. Na merda e na fome, a gente come ou bebe o que tiver.

Mas até antes desse episódio com o meu pai, de vez em quando eu tomava leite, principalmente no curral, tirado direto da tetinha quentinha da dona vaquinha. O copo de leite era um lata de Lepecid cortada ao meio, raspada por fora, lavada márromeno, e entuchada de açúcar cristal do grosso até a metade. Você sabe o que é Lepecid? Rá! Coisa fina. Vê !

Apesar de ter acesso a brinquedos 'da cidade', como carrinhos de plástico e outras coisas, o legal mesmo era carrinho de lobeira. Esse é difícil explicar, por isso eu vou repassar a tarefa para o mala do Hamilton Carneiro, um politiqueiro goiano metido a publicitário, mas que daria um ótimo caipira. Você consegue imaginar uma criança de cinco, seis anos de idade com um facão daquele porte na mão cortando madeira no brejo, indo atrás de lobeira no mato e fazendo um brinquedo desses? Eu consigo, porque já fiz demais e me dei melhor que o Lula, pois tenho todos os dedos!

Mas é claro que você, pai ou mãe, que chegou até aqui nesse texto pode usar com tranquilidade o argumento: 'Esse desnaturado não tem filho'. Ó-pá! Tenho também. Ele tem treze anos hoje. Não vive comigo e morro de saudades dele. Sobre como a mãe dele o cria, eu não opino nem comento, pois ela tem soberano direito na criação dele. O que eu sei é que quando ele está comigo, tudo o que eu o incentivo a fazer é provar a vida. E a vida as vezes é suja, ou pelo menos não demonstra condições assépticas.

Uns dois anos atrás eu passei o réveillon com ele no Jalapão, uma área do Estado do Tocantis que se você não conhece, deveria conhecer, exceto se for coxinha. Fora todas as coisas e pessoas deliciosas com as quais convivemos lá, uma das melhores coisas da viagem foi sem dúvida passar quase uma semana inteira só de bermuda e mais nada. Sem camisa, descalço, quase como viemos ao mundo. O pé sujo, as mão sujas, o corpo suado, mijar e cagar no mato, limpar com folha de árvore. Isso faz parte de se sentir vivo. Ok, papel higiênico não vai matar e é biodegradável. Pode pular a parte da folha de árvore. Mas se der vontade, por quê não?!?

Eu fiz tudo isso e não morri nenhuma vez. Muito pelo contrário, pelo estilo de vida que levo, deveria ter todos os problemas de saúde, mas não tenho. Gripe é coisa rara em mim. Tenho umas alergias bobas de quem cedeu às frescuras da cidade, mas nada grave e que me deixe acamado. De mais a mais, me considero no lucro: tive infância e tenho uma saúde de ferro.

Toda criança precisa disso. Essa experiência de vida é fundamental para, além de prover anticorpos, apresentar a ela as possibilidades da sua própria existência. Essas possibilidades certamente serão analisadas por ela própria no decorrer do seu crescimento e os limites serão ajustados por vocês, pais. Mas por favor, deixem as crianças experimentarem a vida em toda o seu potencial. E isso as vezes envolvem riscos. Apesar dos riscos, não menosprezem a inteligência dos seus filhos: eles não são potenciais suicidas que vão atacar a primeira tomada. Basta uns choquinhos e eles aprenderão que ali não é lugar de pôr o dedo.

A proteção sugerida pelo McDonald's fará do seu filho um coxinha. Eu sou capaz de apostar que vocês, pais e mães amorosos que são, não querem isso para seus filhos, não é verdade?

A zona de tiro está aberta. Mostre o seu calibre nos comentários.